terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Chuvas torrenciais: catastrofe social, desigual e combinada

Neste período de chuvas torrenciais, de ano em ano, ficamos todos boquiabertos, assustados, apavorados, arrebentados e destruídos com os tristes resultados causados pelas catástrofes: enchentes, desmoronamentos, mortes, desabrigados, perdas materiais... As imagens tão divulgadas pelos meios de comunicação ou vivenciadas no dia-a-dia são lamentáveis.

Num esforço de entender porque se repete anualmente esta lamentável situação, parei para pensar como melhor qualificar a palavra catástrofe, utilizada acima no texto. Afirmo que de forma alguma, este texto se propõe a tratar do assunto com tom irônico ou de forma distante da dureza sofrida por aqueles que vivem na pele esta realidade, mas comprometido por uma reflexão que busque respostas, caminhos e sugestões para a mudança de tais calamidades.

Assim, não acredito que o melhor adjetivo a ser usado ao lado da palavra "catástrofe" seja o "natural", ou seja, que a potencialidade destrutiva dos fenômenos climáticos ocorridos são superiores à capacidade de reação e previsão pelos administradores públicos, tornando os impossibilitados de evitar tamanhas tragédias. Também não acredito que somente "Deus" seria capaz de prever tais catástrofes ou que estas não são mais do que castigo divino a desordem humana.

Também, não pretendo adentrar nas questões polêmicas que afirmam que tais mudanças climáticas são ou não provocadas pela ação humana, não pela discordância ou pelo desprezo ao tema, mas sim pela falta de capacidade técnica para aprofundar a questão como também pela opção por outro caminho.

Mas caminhando em sentido paralelo a este último negado, eu penso que estas catástrofes têm forte origem social. Fruto da catástrofe do planejamento urbano, da vulnerabilidade social que vivem as pessoas que geralmente são expostas aos desastres ambientais provocados pelo clima e, portanto, ampliadas pelas condições sociais e estruturais de nossa sociedade.


Um exemplo inicial do resultado da falta de política de planejamento urbano é o abandono de políticas básicas de conservação dos equipamentos públicos e ou a construção de novos equipamentos mais eficazes para diminuir o impacto por exemplo das enchentes: como a limpeza de córregos, de piscinões, de galerias, política efetiva de coleta de lixo e educação ambiental para diminuir o descarte de resíduos em vias públicas etc.

Pensando sobre as áreas de moradia que sofrem com desmoronamentos e enchentes, a maioria das pessoas que moram em torno das áreas de riscos ambientais como encostas, morros, perto de erosões, sobre antigos depósitos de entulhos e lixos, na margem de rios e riachos, sobre terrenos desgastados pelo desmatamento ou pelo mal-uso do solo, são pessoas que vivem também em insegurança a outros diversos direitos sociais como alimentação, emprego, segurança pública, saneamento e saúde publica, entre outros.


Também, muitas vezes, vivem em moradias precárias, construídas com o esforço de uma vida, mas com as limitações econômicas, seja pelo uso improvisado ou pela compra de materiais de construção de baixa qualidade, não adaptados e preparados para responder a carga destrutiva das intempéries naturais.

A desigualdade social e geográfica na distribuição da riqueza em nosso país, leva a uma ocupação desordenada do território. Atraídos pelo emprego ou políticas públicas como educação e saúde ou colocados a margem devido às condições impostas pelo desemprego, morte de chefes de famílias, uso de narcóticos etc., muitos brasileiros se deslocam e se abrigam no entorno dos grandes centros, em situações de extrema vulnerabilidade. Aqui o substantivo ganha mais um duro adjetivo: desigualdade.

Finalmente, tem que ser afirmado que o capital: que constrói na mente das pessoas necessidades e prioridades por um consumo desenfreado por mercadorias descartáveis e globalizadas e esconde na neblina da alienação sentimentos e valores como solidariedade e mobilização social; que na sua anarquia liberal diferencia as pessoas pelo poder econômico, por exemplo, permitindo qualidade de materiais de construção para uns e para outros o risco ambiental; também, é o capital que se retroalimenta com as re-construções das comunidades e bairros destruídos pela natureza e pela falta de planejamento. Ou seja, aqueles que vivem em luxuosos palacetes ou em paraísos naturais acabam lucrando mais e mais com tudo isto. Assim a Catástrofe é social, desigual e combinada.

Neste sentido, tais catástrofes somente serão evitadas em uma sociedade livre da desigualdade social e pautada por um replanejamento do território, onde seja garantida as fundamentais e necessárias condições dignas de moradia a todos. Da mesma forma, também, é necessário a reorientação do trabalho humano, que de forma auto-organizado, possa atender as necessidades básicas, existenciais e práticas de todos como a construção de boas casas, com bom materiais, em áreas agradáveis de se viver, com estrutura sanitárias e de saúde, boas escolas, etc.

O ser humano sabe o que precisa ser feito. Mas antes sera preciso que homens e mulheres agarrem o seu futuro com as suas próprias mãos, fortaleçam as lutas sociais , elevem a rebeldia contra as absurdas injustiças e promovam a organização popular. Caminho árduo e continuo para construir uma sociedade realmente transformada. Enfim, mesmo que árduo, acredito que tamanho sofrimento e silêncio têm prazo de validade.

2 comentários:

elcio disse...

Galera, quem quiser ajudar pode levar suas doações para as pessoas atingidas pela tragédia no RJ para Cruz Vermelha Brasileira, praça da Cruz Vermelha, no Centro do Rio: agua, leite, material de higiene, cobertores, comida não perecível... E sobretudo, precisa-se de voluntarios. Doem umas horas do seu dia!

Elcio Magalhães disse...

Em Brasília, a Cruz Vemelha também está recebendo doações para o RJ, de preferência: alimentos não perecíveis, produtos de higiene pessoal e água. Quem quiser contribuir com trabalho voluntário, também é bem vindo: 715 Norte, Bloco C LJ 25. No Rio: praça da Cruz Vermelha, no Centro.