quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Governo vai distribuir nas escolas públicas CD-ROM sobre ditadura

O Globo

Publicada em 27/12/2010 às 23h02m

Evandro Éboli

BRASÍLIA - No apagar das luzes da gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o governo decidiu ensinar aos estudantes de escolas públicas como eram os porões da ditadura, como funcionava a repressão e como se davam as torturas. O conteúdo dessa aula sobre as vítimas da repressão - incluindo a lista e a biografia dos 384 desaparecidos políticos - está reunido no CD-ROM "Direito à memória e à verdade", que será distribuído aos cerca de 7,2 milhões de estudantes de ensino médio das escolas públicas do país. O material foi produzido pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos e pelo Ministério da Educação (MEC).

O documento digital é um dos mais completos arquivos com registros daquele período: são 10.505 imagens e trechos de 380 filmes e documentários. Há até a inclusão de 4.892 canções que marcaram a ditadura, de 1964 a 1985. O CD-ROM mostra o que ocorria nos teatros, na TV e na imprensa do Brasil e do mundo.

"Objetivo é reflexão sobre aquele tempo"

O documento foi encomendado pelo governo ao Projeto República, um centro de documentação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), coordenado pela historiadora Heloísa Starling. Um dos responsáveis pela concepção do CD-ROM, o historiador Augusto Carvalho Borges afirmou que o objetivo é ir além da biografia das vítimas da ditadura.

- O propósito é mostrar as histórias compartilhadas, não só individuais, fragmentadas. Ao registrar o que ocorria ao mesmo tempo no cinema, no teatro, nas artes plásticas, permite-se uma reflexão sobre aquele tempo. É um tema delicado, sabemos, mas que exige ser amplamente visitado - disse Augusto Borges.

Os alunos terão acesso a imagens de tortura, de militantes de esquerda mortos e de manifestações e a trechos de documentários, muitos desconhecidos no país. É o caso de uma cena do ex-delegado do Dops Sérgio Fleury sendo condecorado por militares. A imagem faz parte do filme "Você também pode dar um presunto legal", de Sérgio Muniz, realizado durante a ditadura e concluído no exílio.

Material digital quer dar visibilidade ao passado

O CD-ROM inclui parte do conteúdo do livro "Direito à memória e à verdade", lançado pela Secretaria de Direitos Humanos em 2007 e que causou polêmica nas Forças Armadas

Os ministros Fernando Haddad (Educação) e Paulo Vannuchi (Direitos Humanos), autores do projeto, afirmaram na apresentação do CD-ROM que o livro foi "mais um passo no reconhecimento, pelo Estado brasileiro, de sua responsabilidade nas graves violações aos direitos humanos ocorridas durante os anos do regime militar". Sobre o CD, os ministros disseram: "Estamos, ambos ministros, convencidos de que somente dando visibilidade aos fatos ocorridos em nosso passado recente poderemos ajudar na construção da memória nacional e contribuir ativamente na construção de nosso futuro".

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Os telegramas do Wikileaks, a mídia e o MST

23 de dezembro de 2010

Por Igor Fuser - Jornalista e professor*
Especial para a Página do MST


Os jornais brasileiros divulgaram na semana passada referências ao MST feitas em telegramas sigilosos enviados nos últimos anos por diplomatas estadunidenses no Brasil aos seus superiores em Washington e revelados pela rede Wikileaks. Algumas reflexões podem ser feitas a partir da leitura desse material.

1. A imprensa empresarial brasileira manteve nesse episódio sua habitual postura de hostilidade sistemática ao MST, apresentado sempre por um viés negativo, e sem direito a apresentar o seu ponto de vista. Para os jornais das grandes famílias que controlam a informação no país, como os Marinho e os Frias, o acesso a vazamentos da correspondência diplomática representou a chance de lançar um novo ataque à imagem do MST, sob o disfarce da objetividade jornalística. Afinal, para todos os efeitos, não seriam eles, os jornalistas, os responsáveis pelo conteúdo veiculado, e sim os autores dos telegramas.

Desrespeitou-se assim, mais uma vez, um princípio elementar da ética jornalística, que obriga os veículos de comunicação a conceder espaço a todas as partes envolvidas sempre que estão em jogo acusações ou temas controvertidos. Uma postura jornalística honesta, voltada para a busca da verdade, exigiria que O Globo, a Folha e o Estadão mobilizassem seus repórteres para investigar as acusações que diplomatas dos EUA no Brasil transmitiram aos seus superiores. Em certos casos, nem seria necessário deslocar um repórter até o local dos fatos. Nem mesmo dar um telefonema ou sequer pesquisar os arquivos. Qualquer jornalista minimamente informado sobre os conflitos agrários está careca de saber que os assentados no Pontal do Paranapanema mencionados em um dos telegramas não possuem qualquer vínculo com o MST. Ou seja, os jornais que escreveram sobre o assunto estão perfeitamente informados de que o grupo ao qual um diplomata estadunidense atribui o aluguel de lotes de assentamento para o agronegócio não é o MST. O diplomata está enganado ou agiu de má fé. E os jornais foram desonestos ao omitirem essa informação essencial.

Esse é apenas um exemplo, revelador da postura antiética da imprensa em todo o episódio. Se os vazamentos do Wikileaks mencionassem algum grande empresário brasileiro, ele seria, evidentemente, consultado pela imprensa, antes da publicação, e sua versão ganharia grande destaque. Já com o MST os jornais deixam de lado qualquer consideração ética.

2. A cobertura da mídia ignora o que os telegramas revelam de mais relevante: a preocupação das autoridades estadunidenses com os movimentos sociais no Brasil (e, por extensão, na América Latina como um todo). Os diplomatas gringos se comportam, no Brasil do século XXI, do mesmo modo que os agentes coloniais do finado Império Britânico, sempre alertas perante o menor sinal de rebeldia dos “nativos” nos territórios sob o seu domínio. Nas referidas mensagens, os funcionários se mostram muitos incomodados com a força dos movimentos sociais, e tratam de avaliar seus avanços e recuos, ainda que, muitas vezes, de forma equivocada. O “abril vermelho”, em especial, provoca uma reação de medo entre os agentes de Washington. Talvez por causa da cor... A pergunta é: por que tanta preocupação do império estadunidense com questões que, supostamente, deveriam interessar apenas aos brasileiros?

3. O fato é que o imperialismo estadunidense é, sim, uma parte envolvida nos conflitos agrários no Brasil. Essa constatação emerge, irrefutável, no telegrama que trata da ocupação de uma fazenda registrada em nome de proprietários estadunidenses em Unaí, Minas Gerais, em 2005. Pouco importa o tamanho da propriedade (70 mil hectares, segundo o embaixador, ou 44 mil, segundo o Incra). O fundamental é que está em curso uma ocupação silenciosa do território rural brasileiro por empresas estrangeiras. Milhões de hectares de terra fértil – segundo alguns cálculos, 3% do território nacional – já estão em mãos de estrangeiros. O empenho do embaixador John Danilovich no caso de Unaí sinaliza a importância desse tema.

4. Em todas as referências a atores sociais brasileiros, os telegramas deixam muito claro o alinhamento dos EUA com os interesses mais conservadores – os grandes fazendeiros, os grandes empresários dos municípios onde se instalam assentamentos, os juízes mais predispostos a assinarem as ordens de reintegração de posse.

5. Por fim, o material veiculado pelo Wikileaks fornece pistas sobre o alcance da atuação da embaixada e dos órgãos consulares dos EUA como órgãos de coleta de informações políticas. Evidentemente, essas informações fazem parte do dia-a-dia da atividade diplomática em qualquer lugar no mundo. Mas a história do século XX mostra que, quando se trata dos EUA, a diplomacia muitas vezes funciona apenas como uma fachada para a espionagem e a interferência em assuntos internos de outros países. Aqui mesmo, no Brasil, fomos vítimas dessa postura com o envolvimento de agentes dos EUA (inclusive diplomatas) nos preparativos do golpe militar de 1964. À luz desses antecedentes, notícias como a de que o consulado estadunidense em São Paulo enviou um “assessor econômico” ao interior paulista para investigar a situação dos assentamentos de sem-terra constituem motivos de preocupação. Será essa a conduta correta de um diplomata estrangeiro em um país soberano?

*Professor da Faculdade Cásper Líbero, doutorando em Ciência Política na USP e membro do conselho editorial do Brasil de Fato.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

FATOS EM FOCO

A coluna que abomina o peleguismo e apóia a combatividade
dos movimentos sociais e dos sindicatos de trabalhadores.
Leia o jornal
BRASIL DE FATO
FATOS EM FOCO

Hamilton Octavio de Souza

CONDENAÇÃO

A Corte Interamericana da OEA acaba de divulgar o resultado do julgamento no qual o Estado brasileiro é responsabilizado pela morte de 70 militantes do PCdoB e camponeses durante a Guerrilha do Araguaia. Ao contrário do Supremo Tribunal Federal, que estendeu a lei da anistia aos torturadores e assassinos, a OEA deixou claro que a anistia não vale para quem não foi condenado. O Brasil precisa se explicar!

SEM NATURA

A indústria de cosméticos Natura promove sua imagem como sendo a de uma empresa política e ambientalmente correta, mas na prática não é bem assim: segundo denúncias dos trabalhadores ela demitiu, na última semana de novembro, em Cajamar (SP), 30 empregados com problemas de LER - lesão por esforço repetitivo - e outras doenças ocupacionais. Primeiro provoca a doença, depois manda para a rua! Cadê o Ministério do Trabalho?

MANOBRA JUDICIAL

Conhecido desde os anos 70 como o político mais corrupto do Brasil, o empresário Paulo Maluf foi pego pela Lei da Ficha Limpa no início da campanha eleitoral deste ano, mas ainda pode ter seus votos validados e assumir uma cadeira na Câmara dos Deputados. O Tribunal de Justiça de São Paulo revogou decisão anterior que o condenava. Só falta agora o TSE o inocentar. Será a desmoralização total da Lei da Ficha Limpa!

BOLHA CRESCENTE

Apesar de toda a euforia consumista da “classe média ampliada” e da venda recorde de carros e outros produtos parcelados, o Ibedec e a Serasa-Experian alertam que a inadimplência do consumidor cresceu 3,5% em novembro em relação a outubro, que é a maior alta mensal registrada desde 2005, e que mais de 60% das famílias estão endividadas, sendo que 9% não conseguirão pagar suas dívidas nos próximos meses. Será mesmo?

SAÚDE PRIVATISTA

Setores médicos e da saúde no Estado de São Paulo prometem realizar manifestações até que o Projeto de Lei 45/10 seja rejeitado pela Assembléia Legislativa. Não é para menos, já que o projeto do governador autoriza a venda de serviços públicos do SUS para planos de saúde particulares. É uma forma de aumentar a privatização da saúde utilizando os recursos e os equipamentos públicos. É muita cara de pau!

VIOLÊNCIA URBANA

Milhares de famílias que moram em áreas ocupadas de Belo Horizonte (MG), a maioria há mais de dez anos, estão em pânico com a nova investida da prefeitura e das autoridades estaduais. O risco de despejo é iminente, já que existem interesses poderosos de olho nessas áreas, tanto para especulação imobiliária quanto para a realização de obras relacionadas com a Copa do Mundo de Futebol. Os pobres que se danem!

POSSE IMEDIATA

Dezenas de movimentos sociais e entidades de direitos humanos encaminharam ao governo federal o pedido para que seja expedido imediatamente o Contrato de Concessão do Direito Real de Uso das reservas de Canavieiras (BA), criada em 2006, e do Canto Verde (CE), criada em 2009, para legitimar a posse das comunidades. Sem a conclusão do processo as duas áreas continuam degradadas pelos grupos econômicos.

REPARO HISTÓRICO

Por unanimidade a 7ª Câmara de Direito Público do Tribunal de Justiça de São Paulo confirmou a aprovação das contas da administração da prefeita Luiza Erundina relativas a 1991, que haviam sido contestadas pelo Tribunal de Contas do Município e pela Câmara Municipal em processo com “procedimento viciado”. Na verdade, Erundina sofreu a mais terrível perseguição política durante anos e só agora a Justiça está sendo restabelecida.

IMPÉRIO VAZADO

Muito do conteúdo existente nos documentos secretos veiculados pelo site WikiLeaks não é novidade e nem surpreende, mas serve para confirmar suspeitas e reafirmar que é sempre prudente desconfiar da atuação do governo e das grandes corporações dos Estados Unidos. O maior exemplo disso veio a público no caso do pré-sal, quando o lobby das petroleiras tentou interferir no sistema brasileiro de exploração. Até quando?

*****

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

RJ: relendo A Flor e a Nausea


A FLOR E A NÁUSEA

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?
Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.
Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.
Uma flor nasceu na rua!
Vomitar esse tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para casa.
Estão menos livres mas levam jornais
E soletram o mundo, sabendo que o perdem.
Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.
Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.


Foto: Urbano Erbiste, do JB

Poesia: Carlos Drummond de Andrade