domingo, 31 de maio de 2009

Mario Benedetti - homenagem póstuma


"Que os justos avancem
solidários como abelhas
aguerridos como feras
e empunhem rodos seus nãos
para instalar a grande afirmação"
Mario Benedetti


Uma Conversa com Mário Benedetti

"Em períodos de perseguição e mordaça, a cultura também passa à clandestinidade. Se uns caminhos se fecham, o artista busca outros, e no caso de que não existam, opta por abri-los... Sempre haverá muros, esquinas, pátios, anúncios, plataformas, sótãos, varandas e até paróquias onde escrever e dizer o que faça falta. Depois de tudo, quando se chega a uma situação na qual a cultura não pode ser difundida por meios mecânicos, sempre fica a traição sanguinária, não te parece?"

Sentados os dois no vestíbulo já deserto da Casa das Américas, Mario Benedetti me estava repetindo quase palavra por palavra o que havia dito horas antes ao deixar inaugurado o Prêmio Casa das Américas número 20, quer dizer, faz já trinta anos, e a gente se belisca para saber que não está divagando. Que sós ficamos os sobreviventes. A morte, "asquerosamente pontual", se nos levou a Mario e não só Montevideo fica órfã dele. Também Havana, que o acolheu em duros tempos de exílio, por convite expresso de Haydeé Santamaría, e que conheceu seu incansável trabalho no Centro de Investigações Literárias da Casa, do qual foi fundador.

Foi lá onde o conheci, e que a relação profissional tornara-se cálida e solidária camaradagem no teve nada de excepcional. Era impossível não gostar dele, para lá da admiração entusiasta que despertara sua obra, que tantos reconhecimentos mereceria.

E falamos, sempre falamos muito, e hoje tiro o pó, num privado ritual de dolo, uma página amarelenta e quebradiça do Resumo Semanal do Granma (fevereiro de 79), na qual Mario, generoso de seu tempo, nos confiara a suas crenças, suas certezas e esperanças mais rotundas.

- A Revolução Cubana?

- Dir-te-ei: O marxismo em espanhol. Parece-te pouco? Com anterioridade a 1959, nos havia invadido - ainda que não fôssemos totalmente conscientes disso - um pessimismo não confessado em relação a uma possível atitude de independência frente aos Estados Unidos.

A Revolução Cubana nos demonstrou que esse pessimismo não era totalmente justificado, que era possível lutar e triunfar ainda que num país menor que o Uruguai, o que já é dizer bastante, e localizado quase nas faces dos Estados Unidos.

Por outra parte, a Revolução Cubana nos aproximou do marxismo: Era a primeira vez que o marxismo falava espanhol, a partir do poder, na América Latina. Isto teve uma enorme importância para os escritores latino-americanos, e fundamentalmente para os que não militávamos em nenhum partido, que não éramos marxistas.

Náo quer dizer que prontamente demos as costas para a Europa, mas sim que a ordem das prioridades mudou em nossa terra de América, ainda que essa transformação não se refletisse imediatamente na literatura, porque o primeiro, o fundamental, foi a mudança de atitude que a Revolução Cubana gerou nos escritores.

Todos começamos a participar de maneiras muito diversas, com matizes diversas e com intensidade diversa na luta de nossos povos. Vale dizer, já não nos fechamos no mundo interior de uma personagem, senão que este começou a ser localizado num contexto social, a ter inquietudes sociais e políticas.

Algo disso ocorreu também com a paisagem, que até então fora quase o principal protagonista da narrativa latino-americana - pensa em La vorágine, Doña Bárbara, Don Segundo Sombra -, e isso sofreu uma mudança: O homem começou a ter mais importância que a paisagem, recuperou seu papel de protagonista. A paisagem, até então sinônimo de domínio, de exploração, de coisa alheia, se converteu num tema a conquistar, numa terra a conquistar. Ciro Alegría intitulou seu romance El mundo es ancho y ajeno [O mundo é largo e alheio], mas poderia havê-lo chamado El paisaje es ancho y ajeno [A paisagem é larga e alheia].

- A Casa das Américas?

- Aí, o fim do isolamento! Olha, em toda esta transformação que se vai dando na literatura e na arte, transformação que se produz paulatinamente no próprio artista como pessoa, não só a Revolução Cubana em si teve muita importância, senão que a Casa das Américas, criada com o propósito explícito de dar a conhecer em Cuba as realidades culturais dos países irmãos da América Latina e também com o de terminar com a incomunicabilidade cultural que um país tinha com respeito a todos os demais.

Eu sei que sempre se diz isso quando se fala da Casa, mas é muito mais transcendental do que pudera parecer a simples vista. A verdade é que não nos conhecíamos, e que muitos pudemos fazê-lo pessoalmente e intercambiar nossas obras vindo a Cuba, convidados pela Casa, esta Casa de todos e para todos, generosa até o inaudito.

- Literatura comprometida?

- Mais de uma vez disse que o panfleto é um gênero tão legítimo como qualquer outro. Existem obras mestras do panfleto: Marx. Engels, Lenin, o Che, Fanon, Fidel têm verdadeiras obras mestras, mas a literatura panfletária é outra coisa, e não me entusiasma para nada... Falta saber o que passa com os artistas do exílio, como trabalha em cada um a nostalgia, o ódio, a apartação, como se afirma ou se debilita sua identidade nacional. Isto nos traz de novo a falar do papel do escritor.

Creio que não se deve exigir a priori que um artista assuma tal ou qual atitude: Primeiro deverá transformar-se como ser humano e depois essa transformação se refletirá em sua obra a posteriori. Quando um autor escreve sobre temas políticos sem que isso esteja respaldado por uma atitude consequente, sua obra soará oca. É como escrever poemas de amor sem estar enamorado, sem sentir o amor, e a política é também uma forma de amor.

Gostaria de crer que depois desta conversa, aqui muito abreviada, uma vez mais vou acompanhar Mario e sua entranhável Luz ao apartamentinho que ambos ocupam no bairro de Alamar, onde vivem, muito orgulhosos, como dois cubanos à pé. Mas não.

Já é tempo de guardar meus preciosos recortes e dizer-lhe Obrigado, Mario, Obrigado pelo fogo e todos os fogos que iluminaram o céu de gerações e gerações de jovens que sempre te tiveram e te terão à mão para cantar ao amor e ao desamor, aos novos exílios e desexílios desde qualquer esquina de uma primavera rota ou arrebentando de flores e esperanças tão contundentes como o teu otimismo, esse que um dia te fez escrever: Pero me consta y sé/ nunca lo olvido/ que mi destino fértil voluntario/es convertirme en ojos bocas manos/ para otras manos, bocas y miradas. [Mas me consta e sei / nunca o esqueço / que meu destino fértil voluntário / é converter-me em olhos bocas mãos / para outras mãos, bocas e miradas]


Ana María Radaelli é jornalista e escritora argentina radicada em Cuba. Trabalhou durante vários anos em Prensa Latina e na revista Cuba.

em: Fundação Lauro Campos

quinta-feira, 14 de maio de 2009

Pizza Solidária

Neste sábado, dia 16 de maio, o Instituto Voz Ativa realizará uma pizzada para a arrecadação de fundos, em especial para o pagamento do aluguel.

Precisamos do apoio de todas as pessoas que acreditam que é possível construir uma sociedade diferente, pautada por outros valores, para que possamos continuar com nossos projetos.

Atualmente temos realizado orientação jurídica gratuita, cinema comunitário, biblioteca e videoteca comunitária, além de estarmos na luta por asfalto na região. No segundo semestre iniciaremos também um cursinho pré-vestibular.

A pizza custa R$ 15,00 (mussarela ou calabresa).

Contamos com seu apoio. Juntos podemos fazer muito.

Endereço:

Av. Dr. Armando Mário Tozzi, 274 - Jardim Lisa, Campinas-SP

Telefone: 19 9276-8709

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Carta a Augusto Boal


Augusto Boal, Presente!

O Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)
divulgoua seguinte carta escrita em homenagem a Augusto
Boal, falecido neste sábado, 2 de
maio:

"Companheiro Boal,

A ti sempre estimaremos por nos ter ensinado que só
aprende quem ensina. Tua luta, tua consciência política,
tua solidariedade com a classe trabalhadora é mais que
exemplo para nós, companheiro, é uma obra didática,
como tantas que escreveu. Aprendemos contigo que os
bons combatentes se forjam na luta.

Quando ingressou no coletivo do Teatro de Arena, soube
dar expressão combativa ao anseio daqueles que queriam
dar a ver o Brasil popular, o povo brasileiro. Sem temor,
nacionalizou obras universais, formou dramaturgos e
atores, e escreveu algumas das peças mais críticas de
nosso teatro, como Revolução na América do Sul (1961).
Colaborou com a criação e expansão pelo Brasil dos
Centros Populares de Cultura (CPC), e as ações do
Movimento de Cultura Popular (MCP), em Pernambuco.

Mostrou para a classe trabalhadora que o teatro pode
ser uma arma revolucionária a serviço da emancipação
humana.

Aprendeu, no contato direto com os combatentes das Ligas
Camponesas, que só o teatro não faz revolução. Quantas
vezes contou nos teus livros e em nossos encontros de
teu aprendizado com Virgílio, o líder camponês que te
fez observar que na luta de classes todos tem que correr
o mesmo risco.

Generoso, expôs sempre por meio dos relatos de suas
histórias, seu método de aprendizado: aprender com os
obstáculos, criar na dificuldade, semjamais parar a luta.

Na ditadura, foi preso, torturado e exilado. No contra-
ataque, desenvolveu o Teatro do Oprimido, com diversas
táticas de combate e educação por meio do teatro, que
hoje fazemos uso em nossas escolas do campo, em nossos
acampamentos e assentamentos, e no trabalho de formação
política que desenvolvemos com as comunidades de periferia
urbana.

Poucas pessoas no Brasil atravessaram décadas a fio sem
mudar de posição política, sem abrandar o discurso, sem
fazer concessões, sem jogar na lata de lixo da história
a experiência revolucionária que se forjou no teatro
brasileiro até seu esmagamento pela burguesia nacional e
os militares, com o golpe militar de 1964.

Aprendemos contigo que podemos nos divertir e aprender ao
mesmo tempo, que podemos fazer política enquanto fazemos
teatro, e fazer teatro enquanto fazemos política.

Poucos artistas souberam evitar o poder sedutor dos
monopólios da mídia, mesmo quando passaram por dificuldades
financeiras. Você, companheiro, não se vergou, não se
vendeu, não se calou.

Aprendemos contigo que um revolucionário deve lutar contra
todas, absolutamente todas as formas de opressão.
Contemporâneo de Che Guevara, soube como ninguém multiplicar
o legado de que é preciso se indignar contra todo tipo de
injustiça.

Poucos atacaram com tanta radicalidade as criminosas leis
de incentivo fiscal para o financiamento da cultura
brasileira. Você, companheiro, não se deixou seduzir pelos
privilégios dos artistas renomados. Nos ensinou a mirar nos
alvos certeiros.

Incansável, meio século depois de teus primeiros combates,
propôs ao MST a formação de multiplicadores teatrais em
nosso meio. Em 2001 criamos contigo, e com os demais
companheiros e companheiras do Centro do Teatro do Oprimido,
a Brigada Nacional de Teatro do MST Patativa do Assaré.
Você que na década de 1960 aprendeu com Virgílio que não
basta o teatro dizer ao povo o que fazer, soube transferir
os meios de produção da linguagem teatral para que nós,
camponeses, façamos nosso próprio teatro, e por meio dele
discutir nossos problemas e formular estratégias coletivas
para a transformação social.

Nós, trabalhadoras e trabalhadores rurais sem terra de todo
o Brasil, como parte dos seres humanos oprimidos pelo
sistema que você e nós tanto combatemos, lhes rendemos
homenagem, e reforçamos o compromisso de seguir combatendo
em todas as trincheiras. No que depender de nós, tua vida e
tua luta não será esquecida e transformada em mercadoria.

O teatro mundial perde um mestre, o Brasil perde um lutador,
e o MST um companheiro. Nos solidarizamos com a família
nesse momento difícil, e com todos e todas praticantes de
Teatro do Oprimido no mundo.

Dos companheiros e companheiras do
Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra


02 de maio de 2009"