quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Para os que virão

Como sei pouco, e sou pouco,
faço o pouco que me cabe
me dando inteiro.
Sabendo que não vou ver
o homem que quero ser.

Já sofri o suficiente
para não enganar a ninguém:
principalmente aos que sofrem
na própria vida, a garra
da opressão, e nem sabem.

Não tenho o sol escondido
no meu bolso de palavras.
Sou simplesmente um homem
para quem já a primeira
e desolada pessoa
do singular - foi deixando,
devagar, sofridamente
de ser, para transformar-se
- muito mais sofridamente -
na primeira e profunda pessoa
do plural.

Não importa que doa: é tempo
de avançar de mão dada
com quem vai no mesmo rumo,
mesmo que longe ainda esteja
de aprender a conjugar
o verbo amar.

É tempo sobretudo
de deixar de ser apenas
a solitária vanguarda
de nós mesmos.
Se trata de ir ao encontro.
(Dura no peito, arde a límpida
verdade dos nossos erros.)
Se trata de abrir o rumo.

Os que virão, serão povo,
e saber serão, lutando.


Thiago de Mello,

"Poesia comprometida com

a minha e a tua vida", 1975.

domingo, 18 de janeiro de 2009

Ao que Vale...

à Mari, Natalie e Bel
e, também, à Laís, Bruna, Ioli
e tantos outros...


Escorregando no veio da serra do mar
segue a régis rumo ao que Vale.

Levando consigo as marcas
e tragédias do mundo globalizado.

Se transformando num mundo
de manacás, sonhos e lutas.

Nesta composição, turismo se
transforma em Manacás

romantismo em
afinação de flautas e violinos.

Onde todos cantam,
dentro do percalço da vida real
mas trilhando e construindo
estradas para o que realmente vale:
um mundo de solidariedade,
auto-gestão e justiça social.

Nestes caminhos seguem
madalenas, margaretes,
Manacás...
Mulheres e Homens que sonham,
lutam, erram e, também, sentem as dores
em seus ombros e pescoços...
mas seguem afinando violinos, flautas
e construindo novas estradas
ao que Vale...


sobre Manacás

sábado, 17 de janeiro de 2009

Discurso no mercado do desemprego

Talvez perca — se desejares — minha subsistência
Talvez venda minhas roupas e meu colchão
Talvez trabalhe na pedreira... como carregador... ou varredor
Talvez procure grãos no esterco
Talvez fique nu e faminto
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Talvez me despojes da última polegada da minha terra
Talvez aprisiones minha juventude
Talvez me roubes a herança de meus antepassados
Móveis... utensílios e jarras
Talvez queimes meus poemas e meus livros
Talvez atires meu corpo aos cães
Talvez levantes espantos de terror sobre nossa aldeia
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Talvez apagues todas as luzes de minha noite
Talvez me prives da ternura de minha mãe
Talvez falsifiques minha história
Talvez ponhas máscaras para enganar meus amigos
Talvez levantes muralhas e muralhas ao meu redor
Talvez me crucifiques um dia diante de espetáculos indignos
Mas não me venderei
Ó inimigo do sol
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Ó inimigo do sol
O porto transborda de beleza... e de signos
Botes e alegrias
Clamores e manifestações
Os cantos patrióticos arrebentam as gargantas
E no horizonte... há velas
Que desafiam o vento... a tempestade e franqueiam os obstáculos
É o regresso de Ulisses
Do mar das privações
O regresso do sol... de meu povo exilado
E para seus olhos
Ó inimigo do sol
Juro que não me venderei
E até a última pulsação de minhas veias
Resistirei
Resistirei
Resistirei

Samih Al-Qassim

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Poesia de resistência palestina

Não iremos embora

Aqui
Sobre vossos peitos
Persistimos
Como uma muralha
Em vossas goelas
Como cacos de vidro
Impertubáveis
E em vossos olhos
Como uma tempestade de fogo
Aqui
Sobre vossos peitos
Persistimos
Como uma muralha
Em lavar os pratos em vossas casas
Em encher os compos dos senhores
Em esfregar os ladrilhos das cozinhas pretas
Para arrancar
A comida dos nossos filhos
De vossas presas azuis
Aqui sobre vossos peitos persistimos
Como uma muralha
Famintos
Nus
Provocadores
Declamando poemas
Somos os guardiões da sombra
Das laranjeiras e das oliveiras
Semeamos as idéias como o fermento da massa
Nossos nervos são de gelo
Mas nossos corações vomitam fogo
Quando tivermos sede
Espremeremos as pedras
E comeremos a terra
Quando estivermos famintos
Mas não iremos embora
E não seremos avarentos com nosso sangue
Aqui
Temos um passado
E um presente
Aqui está o nosso futuro.

Tawfic Zayyad

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Bush: já vai tarde!!!


Nada melhor do que uma bela sapatada para resumir o sentimento
dos povos de todo mundo perante o governo de George W Bush
na piada democrática chamada EUA.